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| O Sr. Ilídio |
Tenho sempre um mau pressentimento no final do ano.
Há dois anos o Natal foi triste para mim, com uma revolta enorme e um mal estar, a prever mais um ano passado e a ver a minha avó a degradar-se de dia para dia. Sabia que o dia dela estava perto, e o Natal tornou-se um choque, quando a fui visitar e ela já "não estava cá". Fiquei com um nó na garganta, e meses depois já eu estava sem ela.
O ano passado, foi um Natal pesado, com a falta dela, a dor da saudade, a dor cá dentro e eu sempre a pensar que nunca mais a veria.
Agora este Natal, ficámos sem a Ninita, a gata da minha mãe. A gata da nossa família. O peso de um animal de companhia é sempre tão grande. A presença deles é constante e quando se vão, é o choque... acabou. Por mais que se tente ultrapassar fica lá as memórias, os momentos, as manhas, as teimosias e os vícios que só um animal tem e que nós, atentos, conhecemos tão bem. Ainda não refeita do choque de que nunca mais vou ver a Ninita, a gata mais linda que um dia acolhi em casa e a minha mãe levou-a porque se apaixonou por ela.
E por fim, sim espero que por fim, que isto tenha acabado, ao menos por este ano... morreu esta noite o Sr. Ilídio, um homem com H grande, um pai de família, um avô maravilhoso e um bisavô feliz. O Senhor Ilídio foi um homem especial, estive com ele uma meia dúzia de vezes, mas deu para perceber pelo sorriso e pelo azul profundo dos seus olhos que foi uma pessoa bondosa. A revolta de ter ficado agarrado à cadeira de rodas, não acabou com ele, mas aos poucos foi resignando-se ao seu estado e a última vez que o vi, já estava desmotivado com a vida. Disse-me: "ahhh, já não ando cá a fazer nada..." com uma tristeza, como se a vida lhe pregara uma partida. Achei-o depressivo e revoltado, mas quem não fica assim, depois da vida super activa e trabalhosa? Nunca achei que fosse a última vez que o visse, mas na verdade foi... desistiu da vida.
Era bom que Deus nos desse a chance de nos despedirmos a sério das pessoas, que marcasse um dia para nos despedirmos delas, convenientemente. Enche-la de beijos e felicidade, para que depois então morresse serena e feliz, agradecida pela vida e reconfortada pela família. Não precisava de ser assim, serena e triste, deixando a saudade repentina de um abraço, do tom da voz e do seu sorriso.
Que a vida lhe seja mais leve do outro lado, Sr. Ilídio. Descance em paz. Vamos ter saudades suas, do seu sorriso e dos seus olhos bonitos!
04 Dezembro 2013

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