
Eram dias de sol como outros quaisquer, a brisa por vezes era leve e batia nos cabelos longos com jeitos rebeldes. Passeava no jardim, cheio de malmequeres e tantas outras flores que a mãe plantara. Gostava de andar de bicicleta e desenhar borboletas com muitas cores. Ainda não sabia ler, mas olhava os livros atentamente e contava as suas histórias, sonhava com todos aqueles desenhos e passava horas a fio a tentar fazer esses desenhos no seu quadro de ardósia com os seus paus de giz brancos. Usava flores no cabelo e andava descalça no verão. Mergulhava nas poças feitas de chuva no inverno. Não gostava de bonecas, preferia uma bicicleta, uns marcadores, umas folhas de papel. Sonhava com um reino de crianças à sua volta, pois no meio onde nascera não tinha vizinhos que a acompanhassem nas suas brincadeiras. Ía buscar leite a um curral de vacas da Tia Idalina, mas detestava leite. Sabia o nome de 30 casais de pássaros que o seu pai coleccionara durante dois anos. Conhecia o barulho da mota do pai a um kilómetro de distância de casa. Apanhava amoras tão doces que no fim do verão estava enjoada. Gostava de pastéis de nata e de colares feitos de pinhão. No início da primavera quando saía da escola rebolava na "praga má" ou "azedas" com o primo Mico. Apanhava minhocas e colocava-as no meio do quintal só para ver os melros ficarem contentes. Adorava ir com o pai para a estufa que estava cheia de alfaces. Aprendeu as horas e a apertar os sapatos muito nova. Quando entrou para a escola sabia escrever o nome completo, as vogais todas e os números de 1 a 10.
Esta é a infância de uma menina.
Essa menina tem um nome.
Essa mulher sou eu.
5 comentários:
Essa menina tornou-se uma linda mulher. A melhor que eu conheço.
E que amarei eternamente.
Beijo.
H.
Muito lindo!
Mas ainda mais a declaração do Hugo :)
Nelson
Belíssimo texto. Parabéns. E, claro para o Hugo.
Por mais mulher que te tornes, serás sempre essa menina encantadora que nos descreves. Porque ela vive em ti, porque ela és tu.
Bjs.
O passado é a única realidade humana. Tudo o que é já foi.
Lindíssimo o texto.
Bravo!
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