O Tio Artur era um homem de trabalho. Via-o todos os dias, quando ia à Vacaria buscar o leite fresco. Ia de bicicleta, para ser mais depressa. Deixava sempre a bicicleta no mesmo sítio. Numa entrada do quintal, onde não havia portão. Encostava-a ao monte de terra que lá estava. Depois atravessava o terreiro e ia ver as vacas que estavam a ser mugidas. Estava sempre lá a minha tia, com um ar bem disposto, que me perguntava se estava tudo bem comigo e lá em casa, ao que eu respondia que sim e ela lá me levava a uma casinha e com uma medida própria enchia a minha vasilha com o leite ainda morno, acabado de sair das vacas que eles tinham. Pegava na minha bicicleta e ía para casa a pedalar com toda a força que tinha. Fazia aquele caminho todos os dias, quando a minha mãe me pedia. Mas um dia, quando tinha acabado de sair com o leite morno, o meu Tio Artur tinha passado por cima das rodas da minha bicicleta com a camioneta que ele tinha. Fiquei nervosa e aflita e chorei muito. Ele com um ar desconsolado também, pegou em mim e na bicicleta e foi levar-me a casa. Coitado. Talvez tivesse eu uns 6-7 anos. Fiquei sem bicicleta durante algum tempo e por isso, quando o via, fugia dele, achava que ele tinha a culpa de tudo aquilo e tinha por ele uma espécie de raiva contida. Nunca me esqueci desse episódio. Hoje sei que ele era um amor de pessoa, e por isso criou umas belas filhas e netos. Há 5 ou 6 anos a minha tia partiu... hoje de manhã, quando recebi uma chamada do meu pai logo pela manhã, sabia que não tinha boas notícias... O meu tio Artur tinha partido, ontem dia 19, Domingo, de morte natural. Talvez quisesse partir. Talvez as saudades da minha tia fossem muitas.
O meu Natal de repente ficou, mais pobre. Com menos um Gomes na família...
Tio, onde estiveres, que descanses em paz, como tu mereces.
Um abraço apertado da tua sobrinha-neta.
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