Hoje pode ler-se no Jornal de Notícias:
"O peixe graúdo é para tubarões"
Vendedores do Bolhão confirmam que maioria dos clientes compram menos, a conta-gotas e vão ao mais barato. Contudo, artigos mais caros ainda têm saída
00h30m
FERNANDO BASTO
"Escreva aí, senhor. O que as pessoas compram mais é o peixinho miúdo, porque o grande vai para os tubarões!". Sem papas na língua e bem ao jeito das vendedoras do Bolhão, Sara Araújo, de 37 anos, faz coro com as demais colegas de ofício ao lamentar que sejam as classes pobre e média a pagar pela crise que se sente por entre as bancas do mercado portuense.
"Já não se vende uma pescada de quilo e meio! Agora, no máximo, é uma de meio quilo. Ou então é um quarteirão de sardinhas ou de carapau, que custam 2,50 euros. É, assim, senhor, tudo a conta-gotas", explicou Sara Araújo.
E os peixes mais caros, como o sável? "Também vendem-se bem. Vêm aí os senhores ali do tribunal e levam tudo e nem regateiam o preço! O povo leva o peixinho miúdo, pois o grande vai para os tubarões", ironizou.
Ao lado, Luísa Silva, de 50 anos, vendedora de carne, conhecida pelas tripas enfarinhadas, não tem dúvidas de que a classe média é que está a pagar a crise. "Quem pode vem compra e não reclama. Mas já se sabe que a clientela em geral vem às compras menos vezes. Também há muita concorrência", explicou.
Alcino Sousa, de 53 anos, igualmente talhante, confirma que as vendas estão más. "Se antes levavam um cabrito para casa, agora só levam meio. E quem fala em cabrito, fala em frango, coelho, carne de porco, tudo, tudo", salientou.
Nem Celestina Moreira, de 50 anos, que vende hortaliça mesmo junto a um dos portões do mercado, tem melhor sorte. "As pessoas agora levam duas cenouras ou duas cebolas quando, dantes, levavam um quilo. Do resto, limitam-se a levar uma penca e um coração que é do mais em conta", explicou.
Mariazinha das Sócias - como é conhecida no mercado -, de 68 anos, testemunha o mesmo marasmo nas vendas. "É mesmo assim: se dantes vendia um corpo, agora só vendo um dedo!", referiu.
Na fruta, o panorama em nada é diferente. "Não há clientela, por causa da crise e por causa das obras que nunca mais se fazem aqui no mercado!", lamenta Emília Loureiro, de 72 anos. "O que nos vale são os clientes habituais, que lá vão comprando alguma coisa, mas sente-se bem que compram menos do que compravam antes", revelou.
Noutro lado do Bolhão, o mesmo lamento, agora na padaria. "Nesta altura de Páscoa, estamos a vender bem os produtos da época, porque as pessoas gostam de manter a tradição. Mas, de resto, nota-se que as pessoas estão a comprar menos quantidade do que costumavam comprar", informou Maria Machado, de 73 anos. "O que muito nos prejudica são as grandes superfícies, a falta de obras no mercado e as multas para quem estaciona lá fora", explicou.
Achei tão engraçado...
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