"As almas são incomunicáveis.
Deixa o teu corpo entender-se com outro corpo.
Porque os corpos se entendem, mas as almas não."
Manuel Bandeira, "Arte de Amar"
"Raramente uso a palavra alma.
Alma é uma facilidade.
Como se a pronunciando, já estamos sendo profundos.
Minha mãe fica ofendida: diz que sou desalmado.
Não é verdade, até o musgo tem alma.
O musgo da escadaria de casa é um tapete de cadarços.
Tem em sua frágil esponja o som dos sapatos que o atravessaram.
O musgo é a campainha dos pés. Não é fácil procurar o corpo.
Por estar sempre à disposição, o corpo confunde.
Ver o corpo não é chamá-lo. Por isso, tardamos a descobrir o que o corpo sente.
Precisa vir um amor para me ensinar o próprio corpo.
O corpo se maravilha de visita.
Meu corpo só se enxerga sendo admirado por uma mulher.
Em mim, o corpo é cego.
Tanta faz que tenha passado trinta anos com o meu corpo, o corpo não acorda com a minha voz. Quem não doa o corpo, não pode recuperá-lo.
Eu sou adepto do corpo.
O corpo me ensina mais humildade do que a alma.
O cansaço do corpo.
Os limites do corpo.
Os serões do corpo.
O corpo me dobra e me convalesce.
O corpo manda, não avisa.
Por ele, sei quando devo voltar.
Quando devo parar.
Quando devo me ajoelhar.
Quando devo desistir.
Quando devo recomeçar.
A alma não, sempre me pede o que não posso fazer.
A alma me mata. A alma me condena a não me contentar.
A alma é ambiciosa, insatisfeita.
No verão, olhava com compaixão os cachorros e os gatos, com sua enormidade de pêlos.
No inverno, eles deveriam me olhar com espanto piedoso, estranhando aquele ser imensamente depilado.
O corpo é estranho para quem não pensa com ele.
O corpo me adapta a morar onde não quero, a criar desejos do nada.
O corpo é uma insignificância imaginária.
Vejo o modo como ela põe os cabelos para trás, e o corpo quer ser a concha de sua mão.
Vejo o modo como ela morde os lábios e o corpo quer ser seu dente da frente.
Vejo o modo como ela afasta os quadris e o corpo amarra as duas pernas.
Os corpos se esclarecem, as almas complicam.
Os corpos não mentem, as almas fogem.
Não há como esconder um corpo.
O corpo e sua alegria muscular.
O corpo e sua euforia de veias.
O corpo e sua chuva de olhos no escuro.
O corpo me envelhece e me põe a exercitar outras virtudes.
Ele muda, mas não me troca.
Quando amo, sou inteiro corpo.
Muito mais corpo do que alma.
O corpo não precisa esperar a noite por uma mulher.
O corpo já tem a noite dentro de si.
Beije o corpo com suor, não com os lábios.
O suor é boca pelo corpo.
O corpo se arrepia.
A alma se convence.
O corpo. O corpo. O corpo.
O corpo é essa garrafa que quebro para viver derramado."
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