Ontem fui ao cinema ver o filme "O Perfume - História de um Assassino".
Um filme baseado na estranha obra de Patrick Suskind, realizado (excelentemente) por Tom Tykwer ( um gemiano, claro :)) ) e uma equipa de pós-produção fantástica! O filme é narrado pela voz simplesmente sublime e pertencente a John Hurt... se puderem ir ver aconselho vivamente!
O LIVRO:
O Perfume - História de Um Assassino, Patrick Suskind
por Levi Lúcio
"O Perfume é, sem dúvida, um romance estranho. Tendo como palco uma excelente reconstituição da França do século XVIII, modos e hábitos sociais, a história transporta-nos através da vida de Grenouille, um homem que nasceu diferente, viveu diferente e morreu diferente. Dotado de um olfacto extraordinário, o personagem vive numa dimensão alternativa, utilizando o nariz onde o comum dos mortais utilizaria os cinco sentidos. Mais inquietante ainda é o facto de ele próprio ser desprovido de odor corporal, o que leva a sociedade a encará-lo com um misto de indiferença e horror.
Todo este mundo irreal e de certa forma sobrenatural acaba por ser um pretexto que o autor utiliza engenhosamente a fim de explorar as paixões básicas que movem a humanidade: o erotismo, o poder, a necessidade de afirmação e a procura de si próprio, retratada aqui na busca do perfume ideal. E embora esta seja a história de um assassino, o próprio nome o indica, os crimes acabam por diluir-se na globalidade do livro, como que desculpados pela pureza das intenções destituídas de qualquer tipo de moralidade. Essa frieza e resolução tornam-se mesmo assustadoras quando comparadas com as vidas das outras personagens que cruzam a história, de certa forma mesquinhas ao lado da de um monstro. A simplicidade com que Grenouille encara a vida é desarmante, e embora saibamos que se trata de uma aberração da natureza, consegue pôr em causa o conceito de vida e o porquê de viver. Enquanto os outros se entretêm em existências superficiais procurando apenas garantias materiais e sociais, ele quer saber quem é, e mesmo a adoração de todos de nada lhe serve quando chega à conclusão de que nunca se poderá descobrir. É a procura infrutífera da razão da existência que é debatida, pondo a nu inconsistências e perguntas por responder. É por este motivo que o fim deixa um travo amargo, já que não se retiram conclusões e só a dúvida fica no ar.
Trata-se de um livro que deve ser consumido de mente aberta, deixando de lado preconceitos e juízos de valor, porque só assim se poderá apreender a beleza de cariz mórbido que se desprende das páginas e a crítica subjacente: quanto somos frágeis e dependentes do nosso eu animal."
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